PERNAMBUCO "A chegada do futuro"
- manchete do "Diário de Pernambuco" noticiando o dia em que o Zeppelin aportou no Recife
Foto: Arquivo
 O Graf Zeppelin pousando no Parque do Jiquiá
Postado por Toinho de Passira Reprodução de narrativa de Fernando Chaves Lins Pesquisa em sites do Brasil e da Alemanha
Hoje faz 77 anos que o o LZ-127 - Graf Zeppelin posou em Recife pela primeira vez, era 22 de maio de 1930, vindo diretamente da Europa, mais que sua primeira viagem ao Brasil, era também a primeira vez que chegava a América do Sul. Até sua desativação, em 1937, desceria 65 vezes no Recife.
A cidade parou para assistir ao espetáculo, tendo o prefeito decretado feriado municipal, enquanto o governador Estácio Coimbra sancionou um decreto estabelecendo como os recifenses deveriam se comportar no dia da chegada "do grande navio aéreo".
Anoitecia quando se teve a primeira informação do avistamento do CRUZADOR DAS NÚVENS que lentamente se aproximava de Olinda.
- É ele! É ele! Parece uma estrela! Parece uma baleia se movendo no ar! Discutia calorosamente a multidão recifense.
Aos poucos aquele ponto luminoso, depois uma figura fantasmagórica na penumbra que antecedia a noite, ia se delineando principalmente quando os seus faróis de proa e popa começavam a dimensionar a grandiosidade daquela majestosa aeronave há muito esperada e assunto predileto dos pernambucanos entusiasmados pela mais moderna e luxuosa maneira de se viajar, conforme se lia nos "reclames" (publicidade da época) da Companhia Zeppelin.
ZEPPELIN
Ascenso Ferreira*
Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! Jiquiá! Usted me puede dar nuevas del Zeppelin? Dove il Zeppelin? Where is the Zeppelin? Passou agorinha em Fernando de Noronha! Ia fumaçando! Chegou em Natal!(Augusto Severo, acorda do teu sonho, Bichão). Alô, Zeppelin! Alô, Zeppelin! Rádio! WZ, QPQP, GQAA... Jiquiá Apontou! Parece uma baleia se movendo no ar! Parece um navio avoando nos ares! Credo, isso é invento do cão! Ô coisa bonita danada! Viva Sr. Zeppelin! Vivaooo! Deustschlan uber aller! Chopp! Chopp! Chopp! Atracou. Saudade: Olá, Sr. Ferramenta você sobe ou se arrebenta?
* Ascenso Ferreira, é um poema pernambucano vanguardista contemporaneo da chegada do Zepellin ao Recife |
Com a chegada da auspiciosa notícia do telégrafo do Campo do Jiquiá, informando que devido ventos contrários retardando a marcha do Graf Zeppelin, seu comandante Hugo Eckener, resolvera desviar o rumo da nave para a cidade do Recife e não mais seguir direto com destino original, o Rio de Janeiro.
O povo exultou e as autoridades começaram os preparativos oficiais de recepção aos denodados aviadores germânicos, naquele histórico dia decretado feriado municipal pelo prefeito Francisco da Costa Maia e Conselho Municipal do Recife. Ao que parece no plano original o Zeppelin chegaria a nossa cidade pela primeira vez, quando regressasse do Rio de Janeiro.
Eram dezoito horas e vinte e oito minutos o momento exato do sobrevôo na catedral de Olinda à procura do Campo do Jiquiá o que fez numa grande curva do norte para oeste e daí virando lentamente contra a direção do vento numa manobra precisa para atracar no mastro do campo de dirigíveis do Jiquiá.
Imediatamente os navios aportados no Recife em conjunto passaram a acionar estridentemente suas sirenes acompanhadas pelo carrilhão do Diário de Pernambuco. Foi o sinal para a maior parte da população da capital se deslocar por todos os meios de transporte para a campina do Jiquiá. Estimou-se que 15 mil pessoas e 2 mil veículos afluíram ao campo de pouso para recepcionar os viajantes do Graf Zeppelin.
- Levei uma surra de maroins - diz Milton da Costa Pinto. Tomei o bonde em Tigipió, saltei no largo da Paz e fiz correndo o resto do percurso até o campo. Nessa corrida perdi o passe. Só entrei por que conhecia um tenente que estava com mais 250 militares do 21º Batalhão de Caçadores procedendo as operações de atracagem.
Por sua vez Samuel de Lima Domingos disse que não conseguiu tomar nenhum bonde, todos completamente lotados. "Tive que ir a pé, quase correndo. Tive sorte, pois fiquei pertinho e como todos emocionados com aquela visão impressionante".  HOMENAGEM AOS TRIPULANTES
Cinqüenta e um anos depois, patrocinados pelo Aeroporto de Frankfurt, Varig e Governo de Pernambuco - Governador Marco Maciel - desembarcaram no dia 14 de setembro de 1981, visitaram o Recife, e o Jiquiá, sete sobreviventes dos 46 tripulantes do Graf Zeppelin para uma visita sentimental à única TORRE DE ATRACAÇÃO DE DIRIGÍVEIS do mundo, edificada em 1934, em substituição da original, menor, construída pelo governo de Estácio Coimbra em 1930 para atracação do LZ 127 Graf Zeppelin por ocasião da sua primeira visita à América do Sul.
Em emocionada solenidade junto à torre do Jiquiá foi descerrada uma placa comemorativa - por sinal atualmente desaparecida - da visita dos intrépidos pioneiros da primeira travessia do Atlântico Sul, com os seguinte texto:
"O Governo do Estado De Pernambuco aos 51 anos do primeiro vôo do GRAF ZEPPELIN ao Recife, os tripulantes Oskar Fink, Ernst Fischbach, Eugen Groeber, Fritz Groentzinger, Richard Kollmer, Maier Xaver E Oskar Roesch, voltam numa viagem sentimental e histórica ao local de pouso do dirigível alemão promovida pelo aeroporto de Frankfurt, VARIG, EMBRATUR e apoio do Governo do Estado de Pernambuco."
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Às 19h35m o Graf Zeppeli estava atracado no seu mastro "sem o menor incidente", afirmava o jornal A Notícia.
Defronte à escadinha de desembarque, o sociólogo Gilberto Freyre - chefe de gabinete do Governador Estácio Coimbra - saudou os intrépidos aeronautas, desejando boas vindas e oferecendo os préstimos do governo e do povo pernambucanos para se concretizar de vez o Recife como o primeiro "Portão de entrada" do turismo internacional da América do Sul com a operação transatlântica regular do fabuloso dirigível alemão que naquele momento tornava realidade a antevisão do genial brasileiro Alberto Santos Dumont.
Em resposta, o comandante Hugo Eckener lamentou "incomodar a população recifense com o estrondo dos motores do Graf que também assustara os pássaros e aves nativas da bela cidade que carinhosamente os recebia com tanto entusiasmo".
Em seguida apresentou às autoridades a sua tripulação e passageiros. Eram, o seu imediato capitão Lehmann, dez pilotos e co-pilotos, 3 navegadores, 3 engenheiros, 2 mestres de marcha, 15 mecânicos, 1 rádio-telegrafista e mais 8 tripulantes (fotógrafos, maetre d hotel, cozinheiro e camareiros, totalizando 43.
Entre os viajantes, 19 passageiros, destacou o Infante Alfonso de Bourbon da real família imperial espanhola e o representante do governo de Pernambuco naquela travessia pioneira - Professor catedrático da Escola Politécnica , Dr. Vicente Licínio Cardoso - que entrevistado pela imprensa declarou:
- Tem-se um bem estar tão grande que esse gênero de navegação deve ser empregado na cura da neurastenia. Goza-se a velocidade de uma centena de quilômetros sem trepidação, sem enjôo, sem tonturas. E o espetáculo é sempre inédito pelo panorama que se descortina.

O Zeppelin além de passageiros transportava carga fretada e malas postais. Segundo o capitão Hans Von Schiller, no livro "Zeppelin", esta aeronave transportou 39.219 quilos de malas postais e 30.442 quilos de carga fretada, desde 18 de setembro de 1928 até 18 de junho de 1937, sua última viagem, provavelmente com saída de Recife, no Brasil. (Extratos de artigos publicados na revista COFI - Correio Filatélico, ECT, números 30 de agosto de 79, sem autor, e 40 de junho de 80, de F.D.R.P.)No dia seguinte o comandante proporcionou aos seus convidados uma visita ao enorme dirigível que resplandecia aos raios solares como se fosse um charuto de alumínio. - Trata-se de uma tinta aluminizada sobre tecido de algodão que recobre por completo a estrutura metálica interna do dirigível - esclareceu o comandante respondendo a primeira e geral pergunta dos visitantes. O comandante utilizava na tradução da sua língua os préstimos de Sofia Trummer De Carli, recepcionista da companhia Zeppelin do Recife, filha do administrador do Campo, Sr. Georg. Junto com os visitantes, a menina Lourdes Godoy - filha do inspetor da Alfândega - foi regiamente presenteada com bombons e chocolate. "Foi a única lembrança que guardei daquele dia histórico!". Ao embarcar em grupos, a visita se iniciava pela ponte de comando na frente da gôndola, onde existia a sala de comando, dependências para rádio-telegrafia e navegação e cozinha. Na parte intermediaria, um grande salão que servia de sala de visitas ou de jantar, se comunicada com um corredor central ladeado por cinco cabinas de cada lado para dois passageiros cada, totalizando vinte viajantes. Em cada cabide existia um pequeno lavabo, janela panorâmica, guarda roupa, mezinha e um sofá que à noite se transformava num beliche para os dois passageiros. No final do corredor existiam duas toaletes, uma de cada lado e uma escada central para acesso ao interior da aeronave. Por medida de segurança não foi permitido à entrada dos visitantes no bojo do Zeppelin que, segundo o comandante, constava de dezesseis células de gás presas na estrutura de duralumínio com capacidade de acumular 94 mil metros cúbicos de gás hidrogênio para sustentação de uma carga útil de 30 toneladas do dirigível. A estrutura era constituída de vinte e seis anéis interligados para dar a forma de um fuso arredondado na frente medindo 236 metros de comprimento e 30 de diâmetro no anel maior. Nos lados dessa estrutura estavam fixados quatro motores de 550 cavalos cada um, sendo dois de cada lado e o quinto no lado de baixo e atrás da gôndola e próximo da cauda onde se localizavam os lemes de direção da aeronave que proporcionavam ao Graf uma velocidade média de 110 Km/h. para uma autonomia de 10 mil quilômetros. Durante sua vida útil o Graf percorreu um milhão e setecentos mil quilômetros em 18 mil horas de vôo em 650 ascensões e 146 travessias oceânicas, sendo 65 redondas para o Jiquiá, no Recife.
O Graf Zeppelin proporcionava aos passageiros um conforto semelhante a um transatlântico de luxo, com aréas sociais como essa, cabines e amplos restaurantes.(Para ver mais imagens internas clique Zepplin por dentro) Os visitantes também conheceram as instalações do Campo de Dirigíveis do Jiquiá administrado pela empresa Herm Soltz e Cia que, além da torre metálica de 16 metros fortemente estaiada por cabos de aço ao piso circular de cimento com dispositivos no topo para fixação do cone do nariz do Zeppelin e plataforma para as operações de atracação e abastecimento de gás, eletricidade e água, contava com uma moderna infra-estrutura para administração e manutenção dos dirigíveis: sala de embarque e despacho de carga e correspondência, dormitório, cantina, posto de assistência médica, loja de venda de selos e charutos ,estação de rádio-telegrafia, fábrica de gás hidrogênio e gasômetro.
Em frente ao prédio central tremulavam as bandeiras do Brasil, Alemanha, Pernambuco e do Sindicato Condor Ltda.
No dia 30 de março de 1930 - noticiava o jornal O Globo - embarca para o Brasil o engenheiro Ernest Besch da Companhia Zeppelin que vem tratar da construção de um mastro de aterrissagem, próximo a capital de Pernambuco.
Com o apoio do Estado que ofereceu o local, água, luz elétrica e uma equipagem de 200 soldados para a operação de pouso e decolagem e a coordenação do engenheiro Dr. Manoel Marques foi construída a infraestrutura com a torre de atracação na localidade denominada Jiquiá, ao sul da cidade do Recife ao lado oeste da estrada de ferro que liga a capital com o Município de Jaboatão.
O empreiteiro da obra, Carlos de Barros Borba, de tanto se expor no lamaçal da área de construção adoeceu seriamente, com febre alta, provavelmente malária e, durante muito tempo delirava repetindo com freqüência para a família apreensiva:
- Lá vem ele, o Zeppelin!.
Sua filha, Maria José Marques, a quem Carlos prometera uma visita ao Zeppelin, por causa da doença do pai teve que se contentar em assistir de sua casa em Tijipió a passagem do Graf para o pouso. Tão grande e voando baixo a fez correr com mais medo do que alegria e admiração pela nave desconhecida.
Ao lado da torre metálica de 16,5 metros e 3,5 toneladas de peso, aproximadamente à 155 metros circulava um trilho para apoio num trole da cauda do dirigível que, assim com o nariz preso no alto da torre se assemelhava a uma biruta comandada pelo vento.
Durante todo o dia 23 de maio o Zeppelin passou por uma completa inspeção e manutenção sendo reabastecido de combustível e gás de sustentação (hidrogênio), víveres e mantimentos para completar o restante da viagem até o Rio de Janeiro.
Era sempre um espetáculo incrível para os pernambucanos de 1930 ver nos céus do Recife essa maravilha teconológica.
RUMO AO RIO DE JANEIRO - Ovacionado pelos presentes, nos primeiros minutos do dia seguinte desligou-se da torre e lentamente dos braços dos soldados ascendendo silenciosamente do Jiquiá com seus motores desligados que somente foram acionados quando o dirigível alcançou alguns metros de altura. De imediato tomou a direção sul em busca da cidade do Rio de Janeiro.
Embarcaram no Recife o comandante Fritz Hammer e o empresário pernambucano Conde Pereira Carneiro, o primeiro diretor da Condor e o outro sócio brasileiro do Sindicato Condor Ltda. - primeira empresa da aviação comercial brasileira - e que juntamente com a Lufthansa e a Delag promoviam esta pioneira viagem transatlântica do Graf Zeppelin, unindo a Europa com a América do Sul.
De regresso do sul novamente o Graf Zeppelin atracou no Jiquiá na tarde do dia 26 de maio, permanecendo no Recife por dois dias quando se abasteceu de combustível e de gêneros de primeira necessidade (galinhas, ovos, biscoito, água mineral, conservas e mil quilos de gelo da Fábrica Fratelli Vita, do Recife), embarcando ainda 16 sacos de correspondência para Nova York e Europa.
 Zeppelin sobrevoando a Praia do Flamengo no Rio de Janeiro.
RUMO AOS ESTADOS UNIDOS- Às 11h30m do dia 28 desligou-se de sua torre e ascendeu vagarosamente com destino aos Estados Unidos da América do Norte. Ao sobrevoar a cidade foi profusamente saudado e fotografado, inclusive sobre a torre do Diário de Pernambuco.
Poucas horas depois, mensagem telegráfica das instalações da Condor, em Natal, informava que o comandante Hugo Eckener havia lançado um ramalhete de flores sobre a estátua do inventor brasileiro Augusto Severo com a seguinte inscrição:
"Homenagem da Alemanha ao Brasil, na pessoa do seu filho Augusto Severo", que ao lado do Conde Graf Zeppelin e Santos Dumont contribuíram para tornar realidade o vôo dirigido do "mais-leve-que-o-ar".
Datada de 4 de junho e procedente de Lisboa foi entregue ao governo mensagem telegráfica do comandante Hugo Eckener enfatizando "a mais fidalga acolhida por parte da população e maior apoio a minha empresa por parte das autoridades pernambucanas. Vou sugeri que um futuro Zeppelin passe a se chamar Pernambuco". 
FIM DO ZEPPELIN :
Em 6 de maio de 1937, aconteceu a explosão do Zeppelin Hindenburg, em Lakehurst, perto de Nova York.
O incêndio do maior zepelim do mundo causou a morte de 35 pessoas.
O dirigível Hindenburg tinha 245 metros de comprimento, 41,5 metros de diâmetro, voava a 135 km/h, com autonomia de vôo de 14 mil quilômetros e havia sido construído pela Zeppelin, na Alemanha.
Ele foi, na sua época, o maior e mais moderno zepelim do mundo.
O acidente aconteceu no final de uma tarde chuvosa, 77 horas depois da decolagem em Frankfurt. A bordo, estavam 61 tripulantes, 36 passageiros, dois cachorros, além de bagagem, cargas e correspondências.
Esse acidente pôs fim a vida dos Zeppelins. |
VOANDO NO ZEPPELIN
O nome do vídeo é “Voando para o Rio a bordo do Graf-Zeppelin" , mas há mais cenas de sobrevôo sobre o Recife de 1930, inclusive imagens do pouso no campo do Jiquiá, da costa pernambucana e da Ilha de Fernando de Noronha do que do Rio de Janeiro. É falado em inglês. Vale a pena ver como documento histórico. (Dos arquivos de Ceciliano no YouTube) Esse post foi publicado originalmente no “thepassiranews” em 22 de maio de 2007. VOLTAR ao "thepassiranews" |
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