| BOLÍVIA – Antropologia A farsa da nação indígena Na Bolívia, país de maioria mestiça, a ideologia que mistura nostalgia inca com marxismo levou Evo Morales ao poder. Muitos índios começam a perceber o engano Foto: Reuters Duda Teixeira , de La Paz Erguida em um vale e nas encostas de uma montanha, La Paz foi feita sob medida para as passeatas, sempre em um único sentido: morro abaixo. Nos últimos quatro anos, a capital da Bolívia foi tomada por demonstrações públicas de apoio ao presidente Evo Morales, à nova Constituição nacional, à expropriação de empresas e aos ataques do governo contra a oposição. Nas últimas duas semanas, ao menos sete manifestações desceram as ruas da capital. Desta vez, porém, as palavras de ordem voltaram-se contra o governo. Entre os que andavam vagarosamente com cartazes em punho estavam centenas de cholas, as descendentes indígenas identificáveis pelas vestes típicas que incluem chapéu-coco, anáguas e saia colorida. Eram mães da cidade de El Alto protestando por ter de complementar o salário dos professores de seus filhos. Foto: Reuters "Evo deve fazer o que está escrito na nossa Constituição, na qual a educação e o respeito aos índios são uma prioridade", diz o dirigente das juntas escolares Ricardo Huarana, um aimará. Enquanto isso, índios de Caranavi, a 160 quilômetros da capital, bloqueavam uma estrada pedindo a instalação de uma fábrica e a renúncia de um ministro.
Após a posse de Morales, muitos bolivianos que se deixaram encantar por essas ideias começaram a perceber que o discurso nativista era uma farsa. Eles reclamam da falta de abertura democrática, da escassez de perspectivas econômicas e da repressão a dirigentes indígenas. O nacionalismo indígena foi institucionalizado na Bolívia com a aprovação de uma nova Constituição, em novembro de 2007, dentro de um quartel e sem os representantes da oposição. O referendo que endossou a Carta só ocorreu em janeiro de 2009, depois de muitos conflitos. O texto estabelece que a Bolívia é um estado plurinacional constituído por "36 nações originais de camponeses indígenas". "Cumprindo o mandato de nossos povos, com a fortaleza de nossa Pachamama (mãe-terra, a deusa da fertilidade) e graças a Deus, refundamos a Bolívia", diz o preâmbulo da Constituição. São conceitos artificiais, pois a sociedade boliviana é majoritariamente urbana e mestiça. Os índios representam apenas 17% da população. Os delírios utopistas do documento constitucional, no entanto, são os que menos causam danos à sociedade boliviana. O perigo maior está no fato de o texto promover o caos social interno ao institucionalizar a chamada Justiça comunitária, que não está submetida à Justiça comum. Há séculos, conselhos formados por anciãos indígenas punem ladrões e assaltantes locais obrigando-os a desempenhar trabalhos forçados. Sanções com açoitamentos eram raras até recentemente. Na prática, a inclusão dos julgamentos comunitários na Lei Magna do país teve duas repercussões. A primeira foi propagar linchamentos entre a população, que agora acredita estar livre para fazer justiça com as próprias mãos. Na Bolívia, há em média um linchamento por semana. Pichações com a frase "Ladrão será linchado" podem ser vistas em vários muros e em bonecos pendurados em postes de La Paz e da vizinha El Alto. Os agressores não são presos nem indiciados porque alegam seguir uma tradição autorizada por lei. A segunda consequência foi ter criado uma brutal arma contra a oposição e ex-aliados de Morales. Ao valorizar a Justiça comunitária, o nacionalismo indígena enfraqueceu a Justiça ordinária, "eurocêntrica", e deu o aval para que militantes do Movimento ao Socialismo (MAS), o partido do presidente, investissem contra seus desafetos impunemente.
Com isso, a Bolívia tornou-se uma terra sem lei. Um caso recente é o do aimará Felix Patzi, ex-ministro da Educação do governo Morales. Apesar de estar em vantagem nas pesquisas para as eleições a governador do departamento de La Paz, de abril deste ano, não contava com o apoio de Morales. Flagrado dirigindo bêbado, foi condenado pela Justiça comunitária a fazer 1 000 tijolos. Além disso, teve a candidatura inabilitada. Se Patzi tivesse concorrido ao pleito e vencido, isso tampouco garantiria a sua posse. Em Achocalla, cidade a poucos quilômetros de La Paz que vive da produção de hortaliças, o mecânico Pedro Ninaja, um aimará, venceu as eleições para prefeito com 32% dos votos. O resultado foi divulgado no site da Corte Nacional Eleitoral no dia 10 de abril. Cinco dias depois, os números foram alterados para beneficiar o MAS. Votos de uma urna desapareceram. Ninaja reclamou para a Corte, sem efeito. "As pessoas de Achocalla sabem que é uma trapaça. Se continuar assim, Morales não conseguirá terminar o seu mandato", diz Patzi, que apoiou o cocaleiro nas últimas duas eleições presidenciais. Outras punições anunciadas como sentenças da Justiça comunitária são mais bárbaras. Em 2009, o ex-vice-presidente Victor Hugo Cárdenas, um aimará, teve a casa às margens do Lago Titicaca invadida por militantes do MAS. Ele escapou porque estava dando aulas na capital. Sua filha de 16 anos, seu filho e a esposa tiveram menos sorte e foram golpeados com pau e chicote. "A imagem de que esse governo defende os indígenas está desmoronando mais rápido do que se pensava", desabafa Cárdenas. "Os índios perceberam que a vida não mudou em nada, tampouco conseguiram alguma representatividade política." A desilusão com a promessa de uma nação indígena pode ser aferida de várias formas. Quando iniciou seu mandato, em 2006, Morales contava com a adesão das quatro maiores organizações de índios do país. Já perdeu o apoio de duas delas: o Conselho Nacional de Ayullus e Markas do Collasuyo (Conamaq) e a Assembleia do Povo Guarani (APG). Uma terceira está dividida. É a Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB). A perda de apoio entre os índios também pode ser confirmada pelo crescente número de bloqueios em estradas, greves e passeatas. Antes de assumir a Presidência, havia 55 protestos por mês no país, muitos deles organizados por Morales. A situação acalmou-se nos anos seguintes, já que o presidente controlava os baderneiros. Neste ano, contudo, os distúrbios populares voltaram a patamares semelhantes aos de 2005. Foto: Reuters Por fim, nas eleições regionais de abril, apesar de ter garantido o controle da maioria dos departamentos do país, o MAS só conquistou a prefeitura de três das dez maiores cidades. |
| Aimará e humanista Foto: Luiz Maximiano Jaime Apaza, de 70 anos, é dirigente da Confederação Nacional de Nações Indígenas Originárias da Bolívia (Conniob), uma das maiores entidades do gênero do país. Em 2005, fez campanha para Evo Morales. Apaza achava que o cocaleiro iria devolver à Bolívia a grandiosidade do império inca nos tempos pré-colombianos. Logo percebeu que o projeto de nação indígena era só uma desculpa de Morales para centralizar o poder em suas mãos. A desilusão de Apaza começou quando enviou, em 2006, uma carta na língua do seu povo para o novo presidente, oferecendo conselhos como "irmão aimará". Nunca obteve resposta. O líder indígena também se sentiu incomodado com os insultos de Morales contra os brancos. "As palavras de ódio do presidente não estão de acordo com nossas crenças", diz Apaza. "Somos aimarás e humanistas. Não discriminamos ninguém" |
| Apartheid indígena Foto: Luiz Maximiano Juan Choque, de 37 anos, mora na comunidade Cantapa, em Tiwanaku, com outros 2 000 índios aimarás. O local fica a 20 quilômetros das ruínas da civilização de mesmo nome, extinta antes do surgimento dos incas. O povoado vive da agricultura de subsistência, com plantações de cevada, quinoa e batata. "Quando Morales disse que acabaria com 500 anos de exploração, acreditamos nele", explica. Logo, no entanto, convenceu-se de que a promessa de aumentar a participação política dos índios não passava de uma farsa. Em 2009, Choque tentou criar um partido de oposição, mas foi impedido por policiais a serviço do MAS, que roubaram os livros de assinaturas e o espancaram a coronhadas. "Vivemos em um apartheid social, em que os índios continuam sem representação política", diz Choque |
| Açoitado até desmaiar Foto: Luiz Maximiano Marcial Fabricano, de 57 anos, é um índio mojeño, uma etnia com 40 000 pessoas. Funcionário da prefeitura de Trinidad, no departamento de Beni, responde pelo atendimento às comunidades indígenas locais. Como os caciques de um desses grupos alegavam que não estavam recebendo as verbas municipais, Fabricano viajou até o povoado para mostrar os comprovantes de repasse. Ao chegar, foi dominado por oito homens do MAS, partido de Morales, e açoitado até desmaiar. Os linchadores anunciaram que haviam cumprido uma sentença da Justiça comunitária, autorizada pela Constituição do país, de 2009. Fabricano passou duas semanas em uma unidade de terapia intensiva em Santa Cruz de la Sierra. "Agora sei que o princípio da Justiça comunitária foi incluído na Constituição para dar respaldo aos atos de violência dos apoiadores de Evo", diz Fabricano. "A verdadeira justiça indígena respeita as pessoas" |
| Sem independência Foto: Luiz Maximiano Lino Villca, membro da tribo yunga, fundou o MAS com Evo Morales e foi eleito senador da República. Há três meses, Villca criou um partido próprio, com outros cinco ex-parlamentares do MAS, todos indígenas. Mais de 600 pessoas se ofereceram como candidatos do partido, chamado Movimento pela Soberania (MPS). Em quatro prefeituras, o MPS foi impedido de participar do pleito, sem justificativas. Em outras nove, o nome dos candidatos e a foto simplesmente não saíram na cédula. "Os índios são usados por esse governo apenas para fazer passeatas e enaltecer Morales. Se tentam seguir um caminho independente, são reprimidos", diz |
| Por que Evo não é índio Foto: Mariana Bazo/Reuters Evo Morales pode ter cara de índio e nariz parecido com o do condor, como nós. Mas seu cérebro é de branco", diz o aimará Felipe Quispe, que, como o presidente boliviano, se dedicou nos anos 90 a organizar protestos com o objetivo de derrubar governos democráticos. A frase de Quispe ecoa a convicção entre os bolivianos de que Morales, internacionalmente conhecido como "o primeiro presidente indígena da América Latina", não passa de uma farsa. Juan Evaristo Morales Ayma, apesar de ter pai e mãe aimarás, nunca aprendeu a língua dos antepassados e deixou sua cidade natal aos 6 anos de idade. Ele se comunica apenas em espanhol e é solteiro, o que para os aimarás é considerado mau agouro. |





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